Cansei da pós-modernidade

abril 5, 2010

O que a sabedoria se tornou para os homens? De poder absoluto – os sábios dominavam o mundo na pólis grega – tornou-se algo totalmente dispensável. Pra que ler um livro se posso baixar o resumo na internet? Pra que mestrado em ciências sociais se posso fazer uma pós-graduação em marketing viral? Pra que escrever um livro, se posso twittar minhas idéias na rede? Pra que ler um clássico de três volumes se, no mesmo período, posso ler cinco livros de auto-ajuda, um romance policial e 25 edições de Você S.A.?

Não, não tenho preconceito com novas tecnologias, mídias sociais, transmídia e todo o linguajar que foi inventado recentemente para falar de coisas que sempre existiram, apenas sob invólucros diferentes. Como se tudo fosse uma grande novidade. Como se nunca ninguém tivesse escrito sobre isso antes. Como se a novela das oito fosse muito inovadora diante da ‘Poética’ de Aristóteles.

Mas heim? Memória? Estudo? Pesquisa? Isso tudo é perda de tempo, minha filha. Você tem que se atualizar. Compra um blackberry, um e-book ou aquele outro troço que esqueci o nome e que dá pra ler livros e jornais numa tela plana e pequena… Não dá tempo de ler Dostoiévski. Talvez um conto de Machado de Assis. Não, acho que nem isso.

Ler com atenção mesmo, você lê é uma crônica do Jabor, que nem é do Jabor. É só um texto cheio de erros de português que alguém escreveu, mandou para os amigos por e-mail e disse que era do Jabor.

Aff! Cansei dessa pós-modernidade frenética, vazia, burra e rasa.

Seis casamentos

novembro 17, 2008

 noivinhos_violino1

Este ano fui a seis casamentos. Isso mesmo, foram seis pessoas conhecidas que se casaram na igreja, com direito a véu e grinalda, festa e buquê voando para cima das mulheres solteiras. Para equilibrar, foram três casamentos de amigos meus + três casamentos de amigos e parentes do meu namorado.

Acho que nunca tomei tanto pró-seco, comi tanta variedade de salgadinhos e canapés, fiz tanta escova no cabelo e usei salto por tanto tempo. Porque eu odeio salto, como vocês já devem saber. Aliás, uma salva de palmas aos casais que distribuem havaianas (mesmo que genéricas, é tudo igual) para as convidadas da festa. É, porque ninguém merece dançar do alto daqueles saltos imensos, a noite toda. E ficar descalça, dando mole para cacos de vidro e sujando o pé no chão imundo, também não dá!

havaianas

Em um destes casamentos de 2008, percebi uma imensa oferta de uísque Black Label e pró-seco. Mas cadê as sandalinhas? Fala sério, resolveram economizar logo no artigo mais importante da festa, que garante minha felicidade por muito mais tempo! Na boa, com duas garrafas de Black Label a menos, dava pra galera biritar bastante e ainda se acabar de dançar usando os confortáveis chinelos… Fica aqui meu protesto!

Para os casamentos do ano que vem, lanço a minha campanha: DISTRIBUA HAVAIANAS PARA A MULHERADA! Sua festa será bem mais bacana!

Você conhece Ary Barroso?

novembro 3, 2008

– Ary o quê?
– Ary Barroso… O compositor!
– Ah, claro! Ele fez aquela música! Como é mesmo o nome? “Não-sei-o-quê do Brasil”…
– “Aquarela do Brasil”.
– Isso! Se bem que não tem uma do Toquinho com o mesmo nome?
– Não, a do Toquinho é só “Aquarela”.
– Ah… Bom, você me confundiu…
– Tá, mas você não sabe mais nada do Ary Barroso? Fala sério!
– Ué, e você sabe?
– Claro: o cara tinha um programa de calouros com gongo, era muito engraçado! Ele “gongava” os calouros que cantavam mal!
– Tipo Chacrinha?
– (desanimado) É… Tipo Chacrinha, só que é mais antigo!
– Ah, legal.
– Escuta, o cara era um músico genial também. Morava no interior de Minas, veio pro Rio estudar Direito e acabou virando um dos maiores compositores do Brasil. Fez música até para filme do Walt Disney.
– Sério?
– Ele também narrava jogo de futebol pelo rádio. E era flamenguista roxo!
– Gente boa, ele, heim?
– Gente boníssima. Um boêmio de primeira.
– Gostava de cerveja?
– Ô! Mas é uma pena que as pessoas de agora saibam tão pouco sobre o cara. Tem cada música, cada samba…
– Era sambista, então?
– Mais ou menos…
– Como assim?

O diálogo acima pode muito bem acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar do Brasil. Pra não fazer o papel do desinformado, te dou duas dicas:

• Correr para assistir ao espetáculo “As Aquarelas de Ary”, em cartaz na Sala Baden Powell, Av. Nossa Sra. de Copacabana, 360, Copacabana, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2548-0421. O espetáculo é da mesma galera que fez trouxe aos palcos a vida de Antônio Maria, em “A noite é uma criança!”, e Mário Lago, em “Ai, que saudades do Lago!”
• Rever o “Som Brasil” sobre a música de Ary. Lindo demais!

Adeus, Luiz Carlos da Vila!

outubro 28, 2008

Gente (meia dúzia de leitores, meus amigos, certo?), desculpem pelo tempo que passei sem escrever por aqui. Mas andei atolada com trabalho, viajei no final de semana e acabei demorando mais do que gostaria para atualizar o blog. Na verdade, o assunto deste post já está na minha cabeça há dias.

Estava lendo o jornal, recheados de mortes sangrentas – Eloá, Artur Sendas, entre outros – quando me deparei com uma morte que realmente me tocou. Não foi um assassinato a sangue frio, nem um acidente fatal… Foi a morte, causada por um câncer no estômago, de um dos maiores sambistas do Brasil: Luiz Carlos da Vila.

Sobre o compositor, retirei um trecho publicado no site Samba-Choro, que explica um pouco a trajetória deste grande artista: “Luiz Carlos nasceu em 1949, no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro onde, mais tarde, seria uma das figuras sempre presentes no já legendário bloco Cacique de Ramos, por onde também passaram outros grandes nomes do samba carioca. Em homenagem ao bloco compôs ‘Doce Refúgio’.
Em 1988 compôs, junto com Jonas e Rodolfo, o samba que levou a Vila Isabel à vitória: Kizomba (A Festa da Raça), sendo este um de seus sucessos mais populares, sempre lembrado nas rodas de samba.”

Para quem não conhece a emblemática figura de Luiz Carlos, vale a pena assistir a um dos diversos vídeos espalhados pelo Youtube cantando nos palcos brasileiros. Abaixo, escolhi um em que ele canta “O sonho não acabou”, que traduz um pouco de sua herança. Luiz Carlos se foi, mas o samba, a esperança, a alegria, o sorriso, o sonho… Isso ele deixou pra gente!

O sonho não acabou (Luiz Carlos da Vila)

A chama não se apagou
Nem se apagará
És luz de eterno fulgor
Candeia

O tempo que o samba viver
O sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer
Candeia

Todo tempo que o céu
Abrigar o encanto de uma lua cheia
E o pescador afirmar
Que ouviu o cantar da sereia
E as fortes ondas do mar
Sorrindo brincar com a areia
A chama não vai se apagar
Candeia
Onde houver uma crença
Uma gota de fé
Uma roda, uma aldeia
Um sorriso, um olhar
Que é um poema de fé
Sangue a correr nas veias
Um cantar à vontade
Outras coisas que a liberdade semeia
O sonho não vai acabar
Candeia

Trate bem dos seus pés

outubro 13, 2008

Cada um com sua mania (ou no seu quadrado). Eu, é claro, tenho as minhas. Portas de armário sempre fechadas. Tenho horror a portas de armário abertas, sabe-se lá por quê! Quando vejo uma porta de guarda-roupa aberta tenho uma impressão de bagunça, de desarrumação (será que é pq meu armário está sempre uma zo-na?!). Mas podem ficar calmos, ainda não cheguei ao nível do TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Estou quase lá… 🙂

Outra mania é lavar os pés antes de dormir. Claro que se eu tiver acabado de tomar banho, não vou fazer isso, mas, se sentir que há uma poeirinha na sola do pé, com certeza corro pro banheiro para lavá-lo. Tenho horror a ficar com os pés sujos. Se alguém derrama cerveja no meu pé durante uma festa, praticamente estraga minha noite.

Salto alto, sapatos de bico fino? Nem pensar!!! Não faço nada que possa maltratar meus pezinhos, afinal, são eles que sustentam o peso do meu corpo o dia todo, né? Mas aí não chega a ser uma mania, e sim, um cuidado especial com meu corpo…

Ok, acho melhor parar por aqui, pois logo, logo vai ter alguém querendo me internar. Só mais um comentário: para meu trabalho, tenho assistido a palestras sobre a loucura, um dos temas que serão abordados na próxima novela das 20h. E sabem o que descobri? Que qualquer um pode enlouquecer a qualquer momento… Isso mesmo, ninguém está imune a essa situação humana, que é deixar sua mente sair do “controle”. A boa notícia é que existem tratamentos bacanas, que usam a arte para incluir o “louco” outra vez na sociedade.

Mas não podemos esquecer daquela máxima, que todo mundo já sabe: de perto, ninguém é normal!

Eu “recomêindo”

outubro 7, 2008

Sou suspeita pra falar, mas pra quem acha que não tem nada de bom nos canais de TV aberta no Brasil, segue a dica de um programa muito interessante pra quem gosta de música: o Som Brasil. Os homenageados são sempre pessoas bacanas (Ary Barroso, Edu Lobo, Ney Matogrosso, Erasmo Carlos) e os convidados são no mínimo inusitados.

Tirando um ou outro, o diretor Luiz Gleiser tem escolhido a dedo os músicos que vão interpretar as composições de cada programa. A maioria é desconhecida pelo grande público, embora sempre tenha um convidado “de peso” para garantir a audiência do Som Brasil.

Já passou pelo palco do programa gente legal como Roberta Sá, Casuarina, Ana Cañas, Mônica Salmaso, entre muitos outros. As interpretações costumam ser bem inspiradas e, muitas vezes, com arranjos diferentes, que não deixam nada a desejar em relação à versão original.

O mais legal é poder acompanhar os bastidores do programa em vídeos publicados antes mesmo que o especial vá ao ar: http://www.sombrasilnoelrosa.globolog.com.br/. Ok, quem produz o making of são duas grandes amigas, mas eu sou fã. É coisa fina, tá? Não deixe de conferir.

Quem tem medo de dinâmica de grupo?

outubro 1, 2008

Quem me conhece, sabe que sou tímida. É uma característica minha que por vezes me deixa em situações difíceis, como falar em público, por exemplo. Mas nada que atrapalhe minha vida, pois se tiver que dar uma palestra e pegar no microfone, faço isso na boa e ninguém percebe que estou me roendo de vergonha. Aliás, já foi a época em que a timidez me incomodava. Fazer o quê? Eu sou assim, gente! Nasci assim, não dá pra ir contra minha natureza e forçar situações bizarras pra perder a vergonha. Até porque, isso só iria me fazer sofrer e a timidez, que me é intrínseca, continuaria lá.

Aliás, as pessoas têm preconceito com os tímidos. Principalmente nas empresas. Parece que o mais bem visto é aquele cara que grita, que gosta de aparecer, que sempre tem algo a dizer nas reuniões (mesmo que sejam comentários inúteis e sem-graça) e que vive fazendo propaganda de si mesmo. Na minha concepção, porém, esse cara só tem um nome: MALA!

Agora, na hora de selecionar funcionários, as empresas parecem se empenhar em escorraçar os pobres dos tímidos dali. Fazer provinhas, redações, testes psicológicos, ok. Mas sempre chega aquele momento de juntar um grupinho em uma sala, com uma moça do RH supervisionando tudo. Ela, então, “gentilmente” pede que cada um fale de si, e os malas, é claro, enchem a boca para dizer que fizeram pós nisso, estágio naquilo, MBA em não-sei-mais-o-quê. O tímido faz um resumo, pois não quer entediar ninguém e não gosta de falar de si mesmo para estranhos. Eu, pelo menos, de-tes-to. Escrever já é diferente e assunto para outros posts… O negócio é a linguagem oral.

 

Enfim, depois daquele blábláblá, a moça do RH pede que as pessoas formem grupos, participem de brincadeiras muitas vezes constrangedoras e, por vezes, se atirem no chão (juro que já participei de uma dinâmica de grupo assim, uó!). Qual é o objetivo, minha gente? Fazer o pobre do tímido, que já está mais do que encurralado, fugir correndo daquela tortura?! Tem quem goste, não quero atirar pedras nos que passam nas dinâmicas. Até porque, são eles que preenchem 90% das vagas nas empresas do país. Os outros 9% são peixes (filhos dos donos, parentes e amigos dos diretores etc.) e os tímidos ficam com 1% do que sobrou.

Felicidade para um tímido é pular da dinâmica de grupo diretamente para entrevistas. Misteriosamente (pelo menos pra mim), sempre me dei bem em entrevistas de emprego. Quando tenho que falar com uma ou duas pessoas da empresa, acho ótimo, sempre passo em tudo. Mas na hora de fazer teatro e concorrer com um monte de gente que quer e precisa aparecer, prefiro descer do palco e ficar observando. Não nasci pra isso, não.

***

Filme ótimo e tudo a ver com o assunto: “O que você faria?”. Originalmente é uma peça espanhola e acho que já ganhou uma montagem no Brasil.

Dublagens e perucas

setembro 29, 2008

Que o cinema brasileiro está cada dia melhor, não resta dúvida. Não vou encher com aquele papo de “retomada” depois de Carlota Joaquina, Central do Brasil e blá, blá, blá… Mas se as produções estão tão bacanas, como deixam passar detalhes tão estapafúrdios como a dublagem de Selton Mello dando voz a Arthur Kohl? Pra quem ainda não viu: Selton Mello interpreta o personagem Dico jovem e Arthur Kohl é o Dico mais velho. Só que toda vez que o Dico velho abre a boca, ouvimos a voz do Selton! E o que é pior: os outros atores que fazem papel de personagens mais velhos (Antônio Pedro, Antônio Pedro e Augusto Madeira) não são dublados pelos atores que fazem os personagens jovens (Ângelo Paes Leme, André Moraes e Jair Oliveira). Só o Arthur.

  

A impressão que tive ao ver as cenas foi de estar assistindo àquele quadro do Hermes e Renato, quando os filmes antigos ganham umas dublagens toscas, sabe? Dava vontade de rir. Por que eles fizeram aquilo? Se alguém souber, por favor, escreva aqui.

Por último, eu não poderia deixar de citar a peruca da Cláudia Abreu, que interpreta a cantora Glória. Uó! Não dava pra cortar o cabelo da atriz? Ou fazer com o cabelo dela mesmo? Achei muito ruim…

Mas não me critiquem por estes comentários ácidos. No geral, o filme é bem legal e diverte. Vale assistir.

O nome do blog

setembro 26, 2008

Certo dia (ou noite?) estava eu, com meu copinho de cerveja, ao lado dos amigos, requebrando e cantando um samba dos bons, daqueles que é impossível ouvir sem requebrar e cantar… Quando me dei conta de que o samba também tem um mantra. Vejam vocês: quase todo o samba (estou falando dos bons!) tem um trecho em que se entoam as palavras “laiá laiá”, sempre juntas, sempre essa dupla dinâmica. Lai-á, lai-á… Não sei se a divisão de sílabas é essa, mas a divisão rítmica com certeza é. E podemos repetir o mantra várias vezes seguidas, até cansar e voltar para os versos da canção.

Está discordando? Então vamos lembrar alguns sambas bem conhecidos e refrescaremos sua memória: “Foi um rio que passou em minha vida”, samba composto por Paulinho da Viola em 1969. O engraçado é que, segundo o próprio Paulinho, o “laiá laiá” não era original da música. Foi gravado por alguém que inventou essa bossa, e acabou sendo incorporada pelo público, que sempre entoava o mantra quando a música terminava, obrigando o Paulinho a cantar também.

Outro “laiá laiá” famoso: “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque. Quem pode omitir o mantra entre os versos “Hoje o samba saiu” e “Procurando você”?! Eu não me atrevo!

Enfim, a essa altura você já deve ter se lembrado de um monte de “laiá laiás” e não consegue mais parar de cantar. Vá perguntar a seus amigos. Eles com certeza se lembrarão de outros tantos e a brincadeira não tem mais fim. A moral da história é: 1- O samba é mesmo democrático, qualquer um pode cantar, mesmo sem saber a letra. 2- Samba também é meditação. Em momentos de estresse, quando alguém estiver te incomodando, feche os olhos e entoe um animado “laiá laiá”. Ou vão te considerar maluco, ou vão sambar com você. Porque tem aquela velha história: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é… É ruim da cabeça, ou doente do pé!”.